[Retrôativo]: A tênue linha entre o casual e o hardcore

Desde meu último artigo neste espaço, fiquei matutando sobre o que eu discorreria na próxima publicação. Esta coluna, inicialmente, tinha o único propósito de recomendar games de gerações passadas ou jogos atuais inspirados nestes moldes antigos, mas, conforme escrevemos, vamos acertando o caminho que queremos seguir. Desta forma, esta publicação foge um pouco de meu foco inicial.

A indústria de games, enquanto geradora de produções artísticas, traz consigo diversos fenômenos sócio-culturais que podem ser estudados sob diversos aspectos. Neste texto, meu enfoque é muito mais voltado para os jogadores do que para um game ou um gênero específico. Pretendo discorrer sobre um fato que vem chamando minha atenção desde que este começou a se alastrar junto do advento da atual geração de consoles e jogos para PC.

Há 10 anos atrás, era difícil ouvir alguém falar em “jogador casual” e “jogador hardcore”. Vejo estas duas denominações sendo usadas amplamente em várias situações: desde a mídia especializada à boca do povo. Se formos ver o uso destes termos sob este aspecto, parece que estas definições tem um significado bem definido. Entretanto, pare um pouco para pensar: o que é casual? É aquele sujeito do seu lado no metrô jogando Angry Birds no iPhone? É seu pai jogando Freecell no PC do seu quarto como se não houvesse amanhã (foi mal, paizão, essa eu tinha que desabafar)? Ou talvez seja aquele seu amigo que só joga FPS militar e que consegue zerar a campanha de Call of Duty 4 no Veteran numa boa? Eu tenho certeza que esse último perfil que descrevi vai dividir opiniões, uns vão achar que o cara é, de fato, uma pessoa fechada a outros gêneros e que, por isso, não é uma pessoa que se interessa muito por games. Outros irão discordar, afinal, o sujeito joga assiduamente os games de interesse dele, inclusive demonstrando habilidade nestes. Pessoalmente, eu acho meu pai bem hardcore jogando Freecell, o cara é um gênio daqueles jogos que vinham no Windows XP. O que quero apontar com todo esse festival de bobagem é que ninguém consegue definir de forma convincente o que é um jogador casual e o que é um jogador hardcore. Podem notar que nem dei pitaco nessa parte. Até agora.

Para me aventurar a tentar definir o que diabos estes termos significam, primeiro eu darei alguns exemplos empíricos acerca destas definições. Já vi gente dizer que o jogador hardcore é aquele que aprecia o desafio, o jogo difícil, enquanto que o casual se restringe ao game que não exige muita “quebração” de cabeça. Embora este seja o uso mais comum que eu presenciei, sou da opinião de que não tem como uma denominação dessas ser levada a sério quando usa como base algo tão subjetivo como “fácil” e “difícil”. Tem gente que acha Angry Birds fácil e Call of Duty difícil, assim como existem pessoas que acham Call of Duty fácil e Dark Souls ou Contra jogos difíceis, e por aí vai. É claro, não vou deixar passar reto o fato de que certos games exigem mais tempo até que o jogador consiga dominar o gameplay com maestria, mas cada pessoa tem mais facilidade ou mais afinidade com um game ou outro.

Em entrevista exclusiva, Master Chief revelou que o negócio dele mesmo é jogar Cooking Mama.

Pode-se estabelecer um paralelo entre a situação descrita no parágrafo anterior e o estudo da cognição. Howard Gardner é um estudioso deste campo que defende uma teoria de sua autoria chamada Teoria das Inteligências Múltiplas. Basicamente, segundo esta teoria, todos nós possuímos vários tipos de inteligência. Gardner as define como: lógico-matemática, musical, interpessoal, intrapessoal, espacial, motora/corporal, linguística e naturalística. O centro da relação que estou estabelecendo com esta teoria é o fato de que ela defende que cada pessoa tem mais ou menos afinidade com cada uma destas inteligências e que estas podem ser desenvolvidas com práticas voltadas para cada um dos campos em questão. Colocando em prática no universo dos games, imagina-se que uma pessoa com uma inteligência lógico-matemática mais desenvolvida tenha mais facilidade com games que envolvam muitos puzzles, enquanto que um indivíduo mais ligado à inteligência motora, supostamente, teria maior facilidade com games desenvolvidos para o Kinect, por exemplo. Tudo isso é suposição minha, mas serve para demonstrar com um pouco mais de embasamento o que eu quero dizer.

Outra definição que já vi ser usada para a divisão-chave deste texto é o quanto a pessoa se dedica aos games, e isto não se restringe ao fator tempo, mas também ao quanto uma pessoa gasta em dinheiro com jogos. Não vejo muito nexo nesta denominação também, afinal, o funcionalismo público brasileiro está apinhado de gente que se dedica assiduamente à arte de jogar Paciência e que não está nem aí para videogames (e não, meu pai não é funcionário público). Assim como existem muitas pessoas que compram jogos e acabam nem jogando muito por falta de tempo ou qualquer outro motivo que as prive da prática.

Para chegar a uma conclusão pessoal fui um pouco longe, relacionando os exemplos que dei e também pesquisando como a indústria dita as tendências relacionadas aos dois grupos em questão. Em realidade, não é cabível dizer que estas divisões surgiram da massa de jogadores, mas sim difundidos com um significado superficial pelos responsáveis pela produção de games. É só assistir a qualquer conferência recente da E3 ou, mais simples, qualquer release oficial de um determinado jogo. Creio que, no final das contas, o jogo casual é aquele que qualquer pessoa pode pegar e jogar sem uma experiência prévia e ainda friso: o marketing deste tipo de produção é totalmente dedicado a ressaltar a importância da “diversão em família” ou a “curtição com os amigos de montão”, quase uma chamada da Sessão da Tarde.  É só assistir ao vídeo incorporado a este post que vocês perceberão porque me dirijo a esse tipo de propaganda de forma pejorativa. O game hardcore, por sua vez, é voltado aos jogadores com experiência prévia ou que tenham tempo e paciência de aprender a dar seus pulos no jogo. Tudo acaba caindo na questão do domínio de gameplay que citei parágrafos atrás. Contanto, irei ressaltar: mesmo um jogo dito casual, na minha opinião, pode ter a jogabilidade reinventada e elevada a um novo patamar por alguém que se dedique ao game. De qualquer forma, a verdade é que a indústria se dá o trabalho de parir a produção já rotulada, eu vejo tudo isso como uma mera questão mercadológica.

E você, concorda comigo? Acha que eu sou um imbecil e quer me mandar para as cucuias? Deixe seu comentário, afinal, este é um espaço para o debate saudável!

Abraços,

Luiz Roveran

Anúncios

4 Respostas para “[Retrôativo]: A tênue linha entre o casual e o hardcore

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s