[Retrôativo]: Chrono, Led Zeppelin e o medo de errar

Olá a todos, esta postagem marca minha volta ao nGeek. Peço desculpas pelo hiato, mas tive que me afastar por motivos pessoais.

O texto de hoje é a opinião de um fã amargurado e que espera trazer uma discussão acerca da produção artística de uma forma geral.

Chrono é minha série favorita de games. Tudo bem, a antiga Squaresoft pouco desenvolveu acerca do universo em questão, mas o que foi produzido por eles foi o suficiente para me dar esta tranquilidade ao afirmar minha preferência com convicção. Deixando o gosto pessoal de lado, tanto Chrono Trigger quanto Chrono Cross são lembrados constantemente pela imprensa especializada como grandes obras e que, dada sua qualidade, mereciam uma sequência. Além disso, ser um RPG de destaque no meio de tanta coisa boa produzida no gênero durante a década de 90 é algo notável, tinha que ser muito bom. Por fim, fica a pergunta: POR QUE DIABOS A SQUARENIX NÃO DÁ CONTINUIDADE A CHRONO?

Com a pergunta em mente, surgem as hipóteses: será algo de âmbito judicial? Talvez não seja interessante do ponto de vista lucrativo? Para mim, é algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, complicado. Medo. Medo de estragar algo até então impecável. É como o lutador que almeja se aposentar com um cartel sem derrotas.

O primeiro fato que exponho vem de uma série meio desconhecida da própria Square, uma tal de Final Fantasy. FF sempre foi e sempre será uma referência para os RPGs (e com todo o mérito, sem dúvidas). Todavia, convenhamos que uma série que deu luz a personagens como Kefka e Cecil chegar ao que chegou é algo traumatizante para sua desenvolvedora. Perdoem-me a acidez, mas creio que a maioria concordará que Final Fantasy briga com uma irregularidade em seus títulos atuais que não existia em seus dias mais áureos. E isso, infelizmente, é algo perfeitamente normal no meio artístico. Algo que faz sucesso e que tenta se renovar ao longo de seus vários anos de existência e acaba “perdendo a mão”. Trazendo esta realidade para Chrono, consideraremos a grande diferença de jogabilidade entre Trigger e Cross, o que faz pensar: onde os produtores de uma possível sequência inovariam sem fugir das raízes da série e agradando fãs e novos jogadores? É uma tarefa difícil. Muito difícil.

Goku agora com cabelos ruivos, só que não.

Pode-se fazer um paralelo desta situação com o universo do rock n’ roll e tendo como centro o Led Zeppelin (eu juro que vai fazer sentido no final, como diria Bill Waterson). Chrono, para mim, é o Led Zeppelin dos RPGs. O Led Zeppelin foi uma ótima banda que surgiu junto com várias outras ótimas bandas, mas que, ao contrário de seus contemporâneos mais proeminentes, parou em seu auge. Enquanto o Deep Purple e o Black Sabbath continuaram suas carreiras por vias tortuosas, mas lançando material novo e fazendo turnês até hoje, o Led Zeppelin parou lá em 1980 para nunca mais lançar coisa nova e descansar ao topo do Olimpo. O Led atualmente divulga um dvd de seu show de reunião feito em 2007, exibindo a filmagem em cinemas e deixando todo mundo com a pergunta na cabeça: Por que esses dinossauros não voltam de vez e fazem a alegria geral da nação? Eis que surge novamente o medo de manchar uma carreira brilhante.

Será que é melhor parar no auge, viver dos bons momentos até o fim dos dias e deixar os espectadores no escuro? Ou será que o medo da falha é uma coisa tola que deveria ser deixada de lado para que os fãs e apreciadores sejam agraciados com algo novo feito pelo brilhante velho? Deixe sua opinião nos comentários!

Abraços,

Luiz Roveran

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4 Respostas para “[Retrôativo]: Chrono, Led Zeppelin e o medo de errar

  1. Isso existe em todas as áreas: Michael Phelps se aposentou das Olimpíadas depois de quebrar todos os recordes e conseguir ouro em todas as modalidades que competiu, e Usain Bolt já anunciou que a Rio 2016 será sua última. Além deles, o fim dos Beatles no auge da sua carreira deixa, até hoje e sempre, a dúvida do que mais viria numa banda que só trazia sucessos. Do ponto de vista marquetista, é claro que deixar uma imagem de inalcançável/genial/sobre-humano é o ideal de todos esses “produtos”. Mas do ponto de vista humano, acredito que muitos devem e vão se arrepender quando olham pra trás e perguntam para si mesmos: “Eu poderia ter feito mais? Eu poderia ter continuando naquilo que eu amava fazer mesmo sem estar no topo?”. Alguns exemplos, como Rolling Stones, Madonna, são criticados por não pararem e às vezes, produzirem músicas falidas. Mas eles já são bem-sucedidos, já tem a vida que almejaram, e continuam porque isso os faz feliz, isso é o que eles sabem fazer, não importa se são os melhores ou não (comparados ao que já foram um dia). Por isso, tirando as ocasiões trágicas (como Airton Senna), acredito que o melhor é ignorar a marca que a mídia te impõe como ‘o melhor dos melhores’ e seguir com a mesma motivação que o levou inicialmente. Parar no caminho ou voltar anos depois, já não é a mesma coisa. Muito bom o artigo!

  2. E complementando meu texto já que foi postado um belo comentário : estava hoje discutindo na faculdade sobre a função da arte na educação e todos chegamos à conclusão de que vivemos uma cultura do anti-erro. Somos ensinados desde criança que não podemos errar, que isto ou aquilo não é legal, mesmo em uma disciplina artística onde, supostamente, a subjetividade reina. A verdade é que o tal medo de errar faz parte da nossa cultura desde que somos crianças, o que inibe nossa criatividade, corta nossas asas.

  3. Pingback: [Retrôativo]: A tênue linha entre o casual e o hardcore | nGeek·

  4. O engraçado é que talvez essas pessoas que decidiram parar foram aquelas que mais se destacaram quando todos eram iguais. Nesse cenário, podemos ter duas opções do que aconteceu: conseguiu ir além do esperado e não possui mais ambições ou, teve sorte. Como não podemos argumentar contra a segunda opção, chegamos a conclusão da primeira: para ser um campeão não é precisar almejar o ideal, talvez o “ser perfeito” que a sociedade tanto nos impõe e, além disso, é necessário persistir em cada passo desse “processo” e ter pequenos erros agora do que sonhar algo fora da sua realidade e se desapontar para o que já era esperado: fracasso. Dessa forma, a fórmula para o sucesso acaba sendo um pouco de sorte, mas com muito esforço.

Comentários

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